Os Ratos
Os Ratos

Autor: Dyonélio Machado

Modernismo de segunda fase. A história começa com o leiteiro ameaçando cortar o fornecimento caso Naziazeno, um modesto funcionário público, não lhe pague os 53 mil réis. De volta a casa, Naziazeno discute com a mulher Adelaide sobre os luxos de sua alimentação, numa tentativa de minimizar o iminente corte no fornecimento de leite. Ele segue de bonde para o trabalho, e passa então o dia atormentado, tentando conseguir o dinheiro: pede emprestado ao chefe (que lhe nega), joga (não consegue na roleta ou no bicho) e acaba conseguindo um empréstimo com o amigo Alcides, através do resgate de um anel que este havia penhorado.

À noite, não consegue dormir preocupado com o dinheiro e com a idéia (quase certeza) de que os ratos roem o dinheiro para o leite de seu filho. Só dorme quando ouve o leiteiro despejar o leite. Numa prosa urbana (a história se passa na cidade), regionalista (porto-alegrenses reconhecem facilmente sua cidade) e intimista (o drama de Naziazeno, embora banal, é sempre apresentado detalhadamente), Os Ratos passa-se apenas em um dia de muito drama para seu protagonista.

Publicado em 1935, Os Ratos tornou-se um dos vencedores do prêmio Machado de Assis daquele ano. Obra prima do realismo de temática urbana do chamado Romance de 30, a narrativa descreve a trajetória de vinte e quatro horas de um modesto funcionário público em busca de dinheiro para saldar a dívida com o leiteiro. Originalmente a história foi sugerida pela mãe do romancista, que lhe contara um pesadelo no qual ratos roíam as notas de certa quantia de dinheiro guardada para pagar dívidas.

A obra se estrutura a partir de um narrador onisciente em terceira pessoa. Para evitar um distanciamento excessivo, Dyonélio Machado utiliza de maneira contínua o discurso indireto livre. Um fator a ser destacado na estrutura narrativa de Os Ratos é o seu tempo de duração: exatamente vinte e quatro horas, que medeiam entre as duas idas do leiteiro à casa de Naziazeno, nas duas madrugadas consecutivas. Dessa forma, o tempo da narração coincide com o tempo da ação.

Há ainda um ponto interessante a ser enfatizado, com relação aos significados metafóricos dos ratos na narrativa. São três as possibilidades: a primeira diz respeito à vida econômica do protagonista - a exemplo dos ratos, Naziazeno se dedica a coletar migalhas. A segunda está referida à interioridade do personagem, dentro dele há ratos que corroem e roem, os ratos da angústia perpétua, da incerteza cotidiana, das dificuldades que nunca terminarão. A presença dos ratos significa a impossibilidade de harmonia de Naziazeno com a realidade. A última delas aparece no momento em que o protagonista percebe a absoluta falta de solidariedade de seus colegas funcionários. " Naziazeno vê-se no meio da sala atônito, sozinho, olhando para os lados, pra todos aqueles fugitivos, que se esgueiram, que se somem com pés de ratos". Aqui, os ratos expressam indiferença e desprezo que os homens das metrópoles frias apresentam.

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